#18 | O orçamento paralelo e o epicentro da pandemia

Uma newsletter sobre jornalismo investigativo baseada em dados do projeto CruzaGrafos e em investigações brasileiras

Olá! Bem-vindas e bem-vindos.

Meu nome é Eduardo Goulart de Andrade* e esta é mais uma edição da Investigadora. Hoje, falaremos sobre uma série de reportagens relacionadas ao orçamento paralelo, uma espécie de "mensalão" do governo Bolsonaro disfarçado de emendas parlamentares. Também vamos abordar uma visualização de dados da Agência Lupa que recebeu um prestigiado prêmio internacional. Já a Dica da Semana traz a indicação de dois cursos de jornalismo investigativo.

A Investigadora é gratuita. Mas, se você gosta dela, contribua financeiramente com o nosso trabalho. No final de cada edição, você encontra um QR Code e uma chave aleatória para pagar via Pix. É fácil, rápido e você pode doar o quanto quiser!

Se esta é a sua primeira vez por aqui, sinta-se em casa. Esta é uma newsletter sobre jornalismo investigativo baseada em dados do projeto CruzaGrafos – parceria da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e do Brasil.IO, com o apoio da Google News Initiative.

As bases de dados do projeto não têm avaliação de mérito. Indícios de condutas ilícitas devem ser checados com fontes e mais informações. Além disso, o fato de qualquer pessoa ser investigada não significa que ela seja culpada. Todos os dados devem ser checados, incluindo os políticos e empresas citados. Também é preciso ficar atento a pessoas e empresas homônimas.

Você pode ler mais sobre o projeto aqui. Preparamos um guia escrito, um vídeo tutorial com legendas em português, inglês e espanhol, além de uma web stories

O CruzaGrafos, indicado como finalista do Sigma Awards 2021, conta ainda com um programa de treinamentos voltado para redações, grupos de freelancers, universidades e organizações do terceiro setor ligadas à educação e à transparência de dados. 

Já fizemos o treinamento com jornalistas do Correio, da Bahia, do Globoesporte, do Rio de Janeiro, do Correio de Carajás, da cidade paraense de Marabá, e do Matinal Jornalismo, da capital gaúcha. Além disso, também tivemos turmas de alunos e professores de graduação e pós-graduação de diversas universidades públicas (UFPR, UFCA, UFC, UFF, UFPA e UFSM). Ainda treinamos um grupo de freelancers do Rio Grande do Sul, além de uma turma que reuniu jornalistas de todo o Brasil. Esta semana, o pessoal do Metrópoles também vai fazer o curso. Na semana que vem é a vez de estudantes de jornalismo da Unesp.

O CruzaGrafos está disponível para todos os associados da Abraji. Para não associados, clique aqui. Quem quiser fazer parte da Abraji, pode ver os passos neste link. E aqui dá para apoiar o Brasil.IO.  

Boa leitura!


O faz me rir que comprou parte do Congresso

Orçamento secreto, tratoraço, Bolsolão ou orçamento paralelo. Independentemente do nome que dão ao escândalo, as matérias que jogam luz sobre uma espécie de "mensalão" do governo Bolsonaro disfarçado de emendas parlamentares já estão entre as investigações jornalísticas mais relevantes deste ano.

Em uma série de reportagens publicadas no Estado de S. Paulo desde maio, o jornalista Breno Pires revelou que o governo destinou R$ 3 bilhões em emendas à base governista no Congresso. Parte desse valor teria sido para comprar tratores superfaturados. O repórter André Shalders, também do Estadão, detalha aqui como funciona o esquema.

Outros veículos de imprensa também entraram na cobertura. A Crusuoé vem se destacando com suas investigações sobre o tema. Na primeira delas, os repórteres Patrik Camporez e Luiz Vassallo mostraram onde foi parar parte do orçamento paralelo. 

"Quando o Estadão deu a matéria, a gente resolveu ir atrás para ver para onde estava indo esse dinheiro. Foi basicamente isso: tentar avançar e mostrar quem são as pessoas que lá na ponta estavam recebendo esse dinheiro", conta Camporez.

Os jornalistas da Crusoé descobriram que o senador Fernando Bezerra Coelho, do MDB, líder do governo no Senado, repassou verba de emendas à empresa de um irmão dele, a Mavel Máquinas e Veículos, e também para a companhia de um amigo da família. "Do ano passado para cá, pelo menos 10 milhões de reais foram usados para comprar máquinas e caminhões em uma concessionária local chamada HGV Veículos. O dono da empresa, Hugo Bezerra Gurgel Neto, é amigo do peito de um dos filhos do senador, o deputado estadual Antônio Coelho", escreveram os repórteres na matéria.

No CruzaGrafos, vemos que Gurgel Neto é sócio de seis empresas.

#PraCegoVer: gráfico mostra as seis empresas de Hugo Bezerra Gurgel Neto

Vassallo explica que eles tiveram acesso a uma planilha que circula no Palácio do Planalto com os nomes de aliados de Bolsonaro e suas respectivas indicações de repasses. "Trata-se de um documento que, apesar de ter sido elaborado de maneira informal, traz informações passíveis de checagem e confirmação de seu teor por meio de fontes públicas e oficiais. Na planilha, há os nomes dos padrinhos, suas indicações e os valores envolvidos."

Camporez dá uma dica de como descobriram os beneficiados pelos repasses. "Por meio do Portal de Convênios do governo federal, a gente conseguiu chegar a essas empresas que foram contratadas lá na ponta."

No Portal de Convênios, segundo Vassallo, também é possível encontrar documentos que expõem as indicações e seus padrinhos. "Há, por exemplo, ofícios dos senadores pedindo a liberação das verbas, e até mesmo a presença destes políticos padrinhos como testemunhas dos contratos firmados."

Os repórteres também usaram dados da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) para chegar em contratos de empresas que foram beneficiadas pelo esquema. "Foi um trabalho de formiguinha, analisar os contratos que foram fechados lá na ponta e buscar as ligações com políticos, com familiares de políticos", conta Camporez.

"É importante frisar que o orçamento paralelo está relacionado aos gastos da emenda de relator e do orçamento do governo. Eles não são as emendas assinadas pelos senadores durante a aprovação do orçamento. Trata-se de uma indicação informal, clandestina", alerta Vassallo.

Na semana passada, Camporez publicou outra reportagem que traz detalhes de como o escândalo vem escalando. Segundo a matéria, mais de meio bilhão de reais foram repassados a senadores da tropa de choque de Jair Bolsonaro na CPI da Covid. E esses repasses aceleraram desde a instalação da comissão parlamentar de inquérito.


No olho do furacão

Imagine viver numa cidade onde todos os moradores tenham morrido ao longo de quinze meses. E não é qualquer município, mas um que tenha mais de 500 mil pessoas. Detalhe: o Brasil possui apenas 49 cidades com mais de meio milhão de habitantes. Até agora, esse é o tamanho da tragédia da Covid-19 no país. Mas foi ainda no ano passado que, com a escalada de mortes, a Agência Lupa publicou o projeto "No Epicentro" em julho. A premissa: e se todos os brasileiros mortos pelo novo coronavírus fossem seus vizinhos?

"Foi um momento em que muitos estavam tentando dimensionar a tragédia e havia comparações do tipo 'dois aviões da Tam por dia', 'x WTC por dia'. A nossa primeira ideia foi comparar com outras tragédias, mas aos poucos isso foi mudando para uma tentativa de aproximar os números da vida das pessoas", explica a jornalista Natália Leal, CEO da Agência Lupa. "Foi numa primeira conversa com o Alberto Cairo que eu e ele formatamos essa ideia de usar a vizinhança da pessoa para mostrar o impacto. E, no fim, se mostrou uma ideia muito acertada, porque gera empatia, realmente aproxima os números e tem muito impacto."

"No Epicentro" é baseado numa visualização de dados extremamente bem-feita e impactante. Semana passada, o trabalho foi premiado no Sigma Awards – um dos principais prêmios de jornalismo de dados do mundo. O CruzaGrafos, da Abraji e do Brasil.IO, esteve entre os finalistas. "O Sigma foi um reconhecimento importantíssimo para nós. A Lupa não é um veículo com tradição em dataviz, mas queremos apostar mais e mais nisso", afirma Leal.

Sete profissionais estiveram envolvidos desde a ideia inicial até o desenvolvimento do projeto. Entre eles, o jornalista e programador Rodrigo Menegat. "A gente usou basicamente, do ponto de vista de ferramentas, Python, Javascript, Mapbox, HTML, CSS. O kit básico da internet para criar uma ferramenta interativa", detalha Menegat, que cuidou dos dados e da narrativa do "No Epicentro".

Menegat programou o algoritmo que calcula o raio a partir da localização indicada pelo usuário. A partir daí, a visualização mostra o número de mortos ao redor deste local. Cada pontinho representa uma pessoa que morreu por Covid-19.

#PraCegoVer: print de uma visualização de dados do "No Epicentro". Os 500 mil mortos pela Covid-19 representam quase um quinto dos moradores de Belo Horizonte, em Minas Gerais

Uma das principais dificuldades encontradas por Menegat foi programar um algoritmo eficiente e rápido. "Ele é um algoritmo pesado. Se eu tivesse programado de uma forma mais óbvia, levaria algo como quinze ou vinte segundos para dar um resultado. E basicamente se o leitor chega na página e tem que esperar vinte segundos pra ver alguma coisa, o leitor não vai consumir informação. Vai desistir. Então, tive uma preocupação quase de engenheiro de software mesmo, de programar algo eficiente. Isso foi algo novo para mim."

"No Epicentro" utiliza duas bases de dados: a malha de setores censitários do IBGE e as mortes causadas pela Covid-19 compiladas pelo Brasil.IO. "Com essa malha, a gente sabe quantas pessoas moram em cada área do Brasil. Por exemplo, numa quadra de São Paulo moram quatrocentas, quinhentas pessoas. E isso a gente usa para estimar o raio de mortes", exemplifica Menegat.

O código-fonte do "No Epicentro" está disponível aqui. E você pode ler mais sobre o desenvolvimento do projeto neste link.

Você pode ver todos os vencedores do Sigma Awards 2021 aqui. O Nexo também levou uma menção honrosa pelo trabalho "O cálculo de uma tragédia", de Lucas Gomes, Gabriel Maia e Caroline Souza. 


Dica da Semana

A Abraji, a Transparência Internacional Brasil e a Fundação Konrad Adenauer oferecem o curso "Corrupção e Saúde Pública". O treinamento é gratuito e busca capacitar 80 jornalistas. As inscrições vão até 29 de junho.

Serão 10 aulas, com duração de uma hora e meia cada, sendo que as quatro últimas serão oficinas práticas. No ano passado, participei como aluno e foi fantástico. Agora serei um dos instrutores, com a aula "Técnicas de OSINT para investigações no contexto da pandemia de covid-19".

A Abraji ainda está com inscrições abertas para outro curso, também gratuito: "Monitoramento e Investigação de Conteúdos Digitais". Este treinamento tem quatro eixos: Desinformação, Monitoramento, Verificação e Narrativas. Dá para se inscrever até 30 de junho. 

"A habilidade de identificar e avaliar a informação distribuída nas redes digitais é fundamental para os jornalistas contemporâneos, sobretudo quando a desinformação é usada como ferramenta de propaganda política, e governantes usam as redes sociais para evitar a mediação da imprensa ao se comunicar com os cidadãos", afirma Marcelo Träsel, presidente da Abraji.


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*Eduardo Goulart de Andrade trabalha profissionalmente com jornalismo há 14 anos. Foi repórter da TV Brasil e já publicou em diversos veículos, como The Intercept Brasil e InfoAmazonia. Desde 2018, tem focado suas reportagens na interseção entre jornalismo investigativo, jornalismo de dados e técnicas de OSINT.

Ficou com alguma dúvida? Quer saber sobre os bastidores de uma determinada reportagem ou aprender mais sobre alguma ferramenta? Vem com a gente: cruzagrafos@abraji.org.br.  

Para ler as edições passadas da Investigadora, clique aqui. Por hoje, é só. Até daqui a 15 dias!

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