#19 | Entre processos e inquéritos: o sangue Yanomami e a caçada a Lázaro

Uma newsletter sobre jornalismo investigativo baseada em dados do projeto CruzaGrafos e em investigações brasileiras

Olá! Bem-vindas e bem-vindos.

Meu nome é Eduardo Goulart de Andrade* e esta é mais uma edição da Investigadora. Hoje, falaremos sobre uma investigação que mapeou diversas empresas que compram ouro ilegal extraídos da Terra Indígena Yanomami. Também vamos abordar uma matéria que reconstituiu assassinatos cometidos por Lázaro Barbosa de Sousa ainda em 2008. Já a Dica da Semana é sobre visualização de dados.

A Investigadora é gratuita. Mas, se você gosta dela, contribua financeiramente com o nosso trabalho. No final de cada edição, você encontra um QR Code e uma chave aleatória para pagar via Pix. É fácil, rápido e você pode doar o quanto quiser!

Se esta é a sua primeira vez por aqui, sinta-se em casa. Esta é uma newsletter sobre jornalismo investigativo baseada em dados do projeto CruzaGrafos – parceria da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e do Brasil.IO, com o apoio da Google News Initiative.

As bases de dados do projeto não têm avaliação de mérito. Indícios de condutas ilícitas devem ser checados com fontes e mais informações. Além disso, o fato de qualquer pessoa ser investigada não significa que ela seja culpada. Todos os dados devem ser checados, incluindo os políticos e empresas citados. Também é preciso ficar atento a pessoas e empresas homônimas. 

Consultamos milhões de dados da Receita Federal do Brasil e do Tribunal Superior Eleitoral. Mas sempre indicamos que você confira na Receita o CNPJ porque os dados de uma empresa podem mudar mais rápido do que nossa atualização.

Você pode ler mais sobre o projeto aqui. Preparamos um guia escrito, um vídeo tutorial com legendas em português, inglês e espanhol, além de uma web stories

O CruzaGrafos, indicado como finalista do Sigma Awards 2021, conta ainda com um programa de treinamentos voltado para redações, grupos de freelancers, universidades e organizações do terceiro setor ligadas à educação e à transparência de dados. 

Já fizemos o treinamento com jornalistas do Correio, da Bahia, do Globoesporte, do Rio de Janeiro, do Correio de Carajás, da cidade paraense de Marabá, do Matinal Jornalismo, da capital gaúcha, e do site Metrópoles, de Brasília. Além disso, também tivemos turmas de alunos e professores de graduação e pós-graduação de diversas universidades públicas (UFPR, UFCA, UFC, UFF, UFPA, UFSM e Unesp). Ainda treinamos um grupo de freelancers do Rio Grande do Sul, além de uma turma que reuniu jornalistas de todo o Brasil. 

O CruzaGrafos está disponível para todos os associados da Abraji. Para não associados, clique aqui. Quem quiser fazer parte da Abraji, pode ver os passos neste link. E aqui dá para apoiar o Brasil.IO.  

Boa leitura!


Do ouro reluzente ao sangue indígena

Uma parceria entre Amazônia Real e Repórter Brasil resultou em uma série de reportagens sobre o caminho do ouro extraído ilegalmente do território Yanomami. O especial "Ouro do Sangue Yanomami", publicado no fim de junho, conta com sete reportagens que mostram desde a extração do metal na maior terra indígena do Brasil até a comercialização das joias em lojas de luxo. Os jornalistas passaram quatro meses apurando essas histórias.

"A ideia de investigar a cadeia do ouro no Brasil surgiu pelo fato de que o tema ainda é pouco explorado pela imprensa de modo geral. Além disso, essa atividade tem um impacto significativo em diferentes estruturas: afeta populações tradicionais, especialmente terras indígenas do norte do país, contamina rios a partir da utilização do mercúrio, incorre quase sempre na extração ilegal do minério, movimenta quantidade significativa de dinheiro e possui vínculos com o crime organizado", explica o jornalista da Repórter Brasil Guilherme Henrique, que participou do especial.

Uma das reportagens da série revela como funciona a "legalização" do ouro ilegal. Para isso, participam do esquema atravessadores, empresas do setor financeiro e até marcas internacionais. Segundo Guilherme, os jornalistas chegaram a essas informações a partir de dois inquéritos da Polícia Federal, obtidos via Lei de Acesso à Informação. Nesses documentos, inclusive, descobriram que a famosa joalheria HStern foi mencionada em duas ocasiões em investigações da PF. O repórter conta que eles ainda conseguiram três denúncias do Ministério Público Federal, com fontes do MPF, que também embasaram as reportagens. "Entre denúncias do MPF e inquéritos da PF, são mais de cinco mil páginas de documentos, analisados pela equipe da Repórter Brasil e da Amazônia Real."

Os jornalistas também se debruçaram sobre os balanços financeiros de três Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs) que foram investigadas pela PF. As DTVMs são empresas que têm autorização do Banco Central para adquirir ouro. Segundo a reportagem, a que mais lucrou no ano passado foi a F.D’Gold, que declarou um lucro líquido de R$ 32,8 milhões em 2020. O dono dela se chama Dirceu Santos Frederico Sobrinho. "Em 2018, ele foi candidato a 1º suplente do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), declarando ter patrimônio no valor de R$ 20,3 milhões", escreveram os repórteres na matéria.

No CruzaGrafos, vemos que Frederico Sobrinho é sócio de 11 empresas.

#PraCegoVer: gráfico mostra as 11 empresas de Dirceu Santos Frederico Sobrinho e sua candidatura na eleição de 2018

Segundo a reportagem, Frederico Sobrinho controla boa parte da cadeia do ouro, "já que é dono de garimpo, dono de lojinhas compradoras e dono de uma das maiores DTVMs do país". Ele também é presidente da Associação Nacional do Ouro (Anoro) e responde a uma série de ações na Justiça. "Utilizamos a base de dados do TSE para identificar os bens de um dos personagens, o Dirceu Frederico Sobrinho. Também utilizamos o PJE para ter informações sobre processos e denúncias criminais", detalha Guilherme.

Rastrear o caminho do ouro no Brasil não é tarefa fácil, mas o jornalista Guilherme Henrique nos dá o caminho das pedras. "Identificar as principais empresas do setor, checar quem são seus acionistas majoritários e entender como essas pessoas entraram no ramo da mineração e do garimpo. Isso pode dar pistas sobre conexões e modos de atuar no setor. Ficar atento às movimentações que esses empresários fazem ao redor de ambientes políticos. É importante estudar a legislação do setor e conhecer suas regras, para identificar em qual momento a ilegalidade tem mais chance de acontecer. Estudar documentos públicos e manuais, assim como obter arquivos sigilosos. E o mais importante de tudo: conversar com o maior número de pessoas possível, entre estudiosos, autoridades e empresários do setor."


A sangue frio na Bahia

Enquanto fugia de centenas de policiais que o caçavam em Goiás, Lázaro era investigado por três jornalistas do Metrópoles. Os repórteres Tácio Lorran e Celimar de Menezes, além da repórter fotográfica Rafaela Felicciano, viajaram até Barra do Mendes, no interior da Bahia, para apurar o passado do criminoso. 

Foram quatro dias de apuração. Os jornalistas sujaram a sola do sapato para conversar com familiares de Lázaro, vizinhos e testemunhas de dois crimes que ocorreram em 2008. Em novembro daquele ano, Lázaro matou duas pessoas. Uma delas era um amigo dele. Os jornalistas descobriram que, depois do primeiro assassinato, o criminoso comeu cuscuz e tomou café na casa do padrasto, que também foi ameaçado de morte.

Para reconstituir as histórias e os cenários que envolvem o duplo homicídio, os jornalistas também se valeram de um recurso riquíssimo para detalhar a narrativa: o processo judicial sobre o caso. Lorran conta que pesquisou pelo nome completo de Lázaro no TJ-BA. Para ter acesso à íntegra dos autos de 2008, o repórter contratou um correspondente jurídico a partir do site Migalhas. Ele conta que o advogado enviou a cópia digital do processo por WhatsApp e cobrou R$ 50 pelo serviço.

"Eram quase quatrocentas páginas. E lá tinha um material bem bacana, incluindo o depoimento que as testemunhas prestaram no próprio dia dos assassinatos. Então, a memória ali estava fresca", detalha Lorran. "A gente tinha esses detalhes bem bacanas, além do laudo da arma, a perícia nos corpos das vítimas, algumas imagens e dois depoimentos do próprio Lázaro."

#PraCegoVer: print da arte publicada no Metrópoles mostra o desenho de um corpo deitado de bruços, com a seguinte legenda: "Mais de 1h após o primeiro assassinato, Lázaro vai à casa de Manoel Desidério da Silva. Ao chegar mais perto do imóvel, atira contra o homem, que agoniza no chão"

Menezes conta que as pessoas envolvidas no caso estavam com medo de dar entrevista. "Assim, a maior parte das pessoas do município de Barra do Mendes acreditava que era uma questão de tempo até Lázaro fugir do cerco policial em Goiás e voltar para casa. Isso as deixou com medo de contar a história, pois elas acreditavam que depois Lázaro veria a reportagem e se vingaria de quem falou com os jornalistas." Mesmo assim, os repórteres conseguiram várias entrevistas – em on e em off.

Para além dessa reportagem, Lorran tem sempre buscado cavar boas histórias em processos judiciais. "É uma uma fonte que já me rendeu bons furos. Recentemente, teve um da capitã Cloroquina e um do empresário que ameaçou atirar no Lula. Enfim, rende pautas legais e acho que é uma fonte legal de você se especializar, de entender como é que funcionam os sistemas".


Dica da Semana

Quer fazer gráficos interativos com ferramentas fáceis de usar e de graça? O Flourish é um site que pode ajudar tanto quem está começando a fazer visualização de dados, quanto aqueles que já têm mais experiência na área. A plataforma disponibiliza uma série de templates que facilitam nossa vida na hora de criar uma corrida de barras animada ou um "treemap", por exemplo. Uma outra plataforma semelhante é o Datawrapper, que também é intuitivo e eficiente.

A Escola de Dados tem um tutorial bem legal que explica como criar um mapa eleitoral com o Flourish. E o Guilherme Storck, editor de infografia na Gazeta do Povo, apresenta ótimas dicas de dataviz no blog Dados Finos. Quer mais?! Então toma: o Knight Center promoveu um curso sensacional – chamado "Jornalismo de Dados e Visualização com Ferramentas Gratuitas" – de graça, com grandes nomes do jornalismo de dados e em português.

Para descobrir os melhores infográficos de 2020, veja esta lista dos trabalhos que foram premiados pelo Malofiej, o "Pulitzer da infografia". Nesta última edição, realizada mês passado, veículos brasileiros receberam cinco prêmios. Globoesporte foi premiado com duas medalhas de prata, com especiais sobre o gol mais bonito de Pelé e a técnica do boxeador Mike Tyson, e uma de bronze (também com a matéria do pugilista). Folha de S.Paulo, com infográfico sobre cemitérios durante a pandemia, e Agência Lupa, com No Epicentro, também foram premiadas com medalhas de bronze.

Para acompanhar o crème de la crème da visualização de dados, saboreie os gráficos produzidos por The Pudding, New York Times, The Guardian e The Economist. Sentiu falta de um tempero brasileiro? O Nexo é um prato cheio para quem ama dataviz. Inclusive, tem uma newsletter mensal sobre infografia. Falando nisso, a The Economist lançou recentemente uma newsletter sobre jornalismo de dados, publicada às terças-feiras.


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*Eduardo Goulart de Andrade trabalha profissionalmente com jornalismo há 14 anos. Foi repórter da TV Brasil e já publicou em diversos veículos, como The Intercept Brasil e InfoAmazonia. Desde 2018, tem focado suas reportagens na interseção entre jornalismo investigativo, jornalismo de dados e técnicas de OSINT.

Ficou com alguma dúvida? Quer saber sobre os bastidores de uma determinada reportagem ou aprender mais sobre alguma ferramenta? Vem com a gente: cruzagrafos@abraji.org.br.  

Para ler as edições passadas da Investigadora, clique aqui. Por hoje, é só. Até daqui a 15 dias!

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