#25 | Pandora Papers e crimes sexuais na Igreja

Uma newsletter sobre jornalismo investigativo baseada em dados do projeto CruzaGrafos e em investigações brasileiras

Olá! Bem-vindas e bem-vindos.

Meu nome é Eduardo Goulart de Andrade* e esta é mais uma edição da Investigadora. Antes de mais nada, é hora de dizer adeus. Gostaria de agradecer imensamente pela sua leitura. Durante esses oito meses em que editei as últimas 20 edições da newsletter, tive o privilégio de conversar e aprender com repórteres brilhantes. E, claro, contei com seu tempo, suas críticas e sugestões, caro leitor. Além disso, agradeço ao coordenador de projetos da Abraji, Reinaldo Chaves, que confiou em mim para tocar esta empreitada. A todos vocês, meu muito obrigado!

E se você quiser acompanhar meu trabalho, de tempos em tempos devo compartilhar dicas e técnicas de investigações na minha newsletter De Olho nos Dados. Além disso, continuo trabalhando como curador do projeto Pinpoint, parceria da Abraji com o Google, e como editor de Brasil no OCCRP.

Também aviso que a newsletter Investigadora vai entrar em recesso por alguns meses. A equipe do CruzaGrafos, o Reinaldo e o Álvaro Justen (Turicas), está preparando novas funcionalidades e novas bases de dados para o projeto. Vem coisa boa por aí para ajudar nas investigações jornalísticas.

Enfim, vamos aos temas desta edição. Hoje, falaremos sobre uma investigação que revelou que brasileiros com offshores no Pandora Papers devem à União R$ 16 bilhões em impostos. Também vamos abordar uma série de reportagens sobre crimes sexuais dentro da Igreja Católica. Já a Dica da Semana é sobre uso do LinkedIn.

A Investigadora é gratuita. Mas, se você gosta dela, contribua financeiramente com o nosso trabalho. No final de cada edição, você encontra um QR Code e uma chave aleatória para pagar via Pix. É fácil, rápido e você pode doar o quanto quiser!

Se esta é a sua primeira vez por aqui, sinta-se em casa. Esta é uma newsletter sobre jornalismo investigativo baseada em dados do projeto CruzaGrafos – parceria da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e do Brasil.IO, com o apoio da Google News Initiative.

As bases de dados do projeto não têm avaliação de mérito. Indícios de condutas ilícitas devem ser checados com fontes e mais informações. Além disso, o fato de qualquer pessoa ser investigada não significa que ela seja culpada. Todos os dados devem ser checados, incluindo os políticos e empresas citados. Também é preciso ficar atento a pessoas e empresas homônimas. 

Consultamos milhões de dados da Receita Federal do Brasil e do Tribunal Superior Eleitoral. Mas sempre indicamos que você confira na Receita o CNPJ porque os dados de uma empresa podem mudar mais rápido do que nossa atualização.

Você pode ler mais sobre o projeto aqui. Preparamos um guia escrito, um vídeo tutorial com legendas em português, inglês e espanhol, além de uma web stories

O CruzaGrafos, indicado como finalista do Sigma Awards 2021, conta ainda com um programa de treinamentos voltado para redações, grupos de freelancers, universidades e organizações do terceiro setor ligadas à educação e à transparência de dados. 

Já fizemos o treinamento com jornalistas do Correio, da Bahia, do Globoesporte, do Rio de Janeiro, do Correio de Carajás, da cidade paraense de Marabá, do Matinal Jornalismo, da capital gaúcha, e do site Metrópoles, de Brasília. Além disso, também tivemos turmas de alunos e professores de graduação e pós-graduação de diversas universidades públicas (UFPR, UFCA, UFC, UFF, UFPA, UFSM e Unesp). Ainda treinamos um grupo de freelancers do Rio Grande do Sul, além de uma turma que reuniu jornalistas de todo o Brasil. No total já foram 122 pessoas. 

O CruzaGrafos está disponível para todos os associados da Abraji. Para não associados, clique aqui. Quem quiser fazer parte da Abraji, pode ver os passos neste link. E aqui dá para apoiar o Brasil.IO.  

Boa leitura!


Abrindo a caixa de Pandora

Se você não esteve fora do planeta Terra nos últimos 10 dias, com certeza ouviu falar do Pandora Papers. Para quem estava no mundo da Lua, explico. O Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ na sigla em inglês) teve acesso a 11,9 milhões de arquivos confidenciais vazados de escritórios que administram offshores em todo o mundo. Esses documentos revelam que centenas de políticos e funcionários públicos de alto escalão, além de notórios criminosos, mantêm contas em paraísos fiscais. E para analisar esse tsunami de informações, o consórcio liderou uma equipe de mais de 600 jornalistas, de 150 veículos sediados em 117 países. Segundo o ICIJ, é a maior colaboração jornalística do mundo.

Aqui no Brasil, fazem parte da empreitada a revista piauí e os sites Metrópoles, Agência Pública e Poder360. O jornalista Guilherme Amado, do Metrópoles, é um dos brasileiros que integram o ICIJ. Ele conta que o convite para participar do Pandora Papers veio no início deste ano.

Como o projeto é colaborativo e envolve vários veículos brasileiros, Amado explica que a divisão do trabalho se deu da seguinte forma: quem encontrar primeiro uma pauta na base de dados do ICIJ, avisa aos outros integrantes do consórcio e fica com a história. Foi assim que os repórteres Allan de Abreu e Ana Clara Costa, da piauí, revelaram que o ministro Paulo Guedes e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, tinham offshores. 

Amado tem vasta experiência em colaborações transnacionais. Participou, por exemplo, da cobertura da Lava Jato e do FinCEN Files. Ele avalia que o Pandora Papers tem suas particularidades em comparação a outras investigações colaborativas. "Nesse você trabalha em cima de um volume de documentos muito maior. Então, isso faz com que as buscas na base de dados do ICIJ sejam muito mais persistentes do que em outras que já têm a base de dados estruturada. Ou em outras que não são em torno de uma base de dados, mas em torno de assuntos." Essa persistência, afirma, é para ter certeza de que as possibilidades de pauta daquela base foram esgotadas. "Certamente a gente não esgotou ainda, tem muito ali pra contar."

Juntamente com Lucas Marchesini, também do Metrópoles, Amado já contou três histórias a partir da base de dados do Pandora Papers. Eles descobriram offshores de acionistas das 20 maiores empresas do Brasil. Revelaram que 65 dos maiores devedores de impostos à União mantém contas em paraísos fiscais. E mostraram que sócios da VTCLog, empresa investigada na CPI da Pandemia, também criaram empresas nas Ilhas Virgens Britânicas.

Marchesini diz que chegou ao projeto no fim de abril. "Primeiro, toquei essa parte dos sócios [das maiores empresas] e depois fui tentando cavar mais pautas na base. Para entender melhor o assunto, li o livro 'The Wealth Hoarders: How Billionaires Pay Millions to Hide Trillions', do Chuck Collins, ainda sem tradução no Brasil. Depois de lê-lo, tive a ideia de procurar os maiores devedores pessoa física da dívida ativa [da União] na base, o que rendeu a outra matéria."

Para colocar a ideia em prática, Marchesini teve que baixar as bases da dívida ativa e limpá-las para manter apenas quem devia mais de R$ 20 milhões. Para fazer a limpeza, ele usou este código de programação em Python. "Depois disso, fiz uma busca em massa na base [do ICIJ, o Datashare] com essa lista. Em seguida, filtrei os resultados para evitar casos de homônimos. Isso foi feito manualmente e permitiu chegar à lista final. Com essa lista, parti para a busca dos envolvidos para pegar o outro lado. A apuração ao todo levou uns 3 meses, com períodos mais intensos e outros menos intensos."

A partir do cruzamento de dados, os jornalistas do Metrópoles mostraram que  o empresário Eike Batista tem duas offshores e deve R$ 3,8 bilhões à União. Eles também chegaram a outros nomes menos conhecidos, como o de Claudio Rossi Zampini, que possui débitos que somam R$ 1,3 bilhão. No CruzaGrafos, vemos que ele é sócio de cinco empresas no Brasil.

#PraCegoVer: print do CruzaGrafos mostra que Claudio Rossi Zampini é sócio de cinco empresas, entre elas, a CRZ Telecomunicações e a Flamingo Táxi Aéreo

Para Amado, a principal dificuldade enfrentada nesse projeto é quando os jornalistas procuram o outro lado, a pessoa diz que declarou a offshore mas não quer mostrar o comprovante da declaração. "A gente fica um pouco na mão dele, né? Porque a gente não tem como provar, essa informação não é pública e é dificílimo uma fonte da Receita Federal que fale, que queira na prática quebrar o sigilo de alguém. E também é uma coisa delicada de se fazer." De qualquer forma, como escreveu em sua coluna, Amado espera que os auditores da Receita Federal estejam atentos às reportagens do Pandora Papers para buscar se offshores citadas foram de fato declaradas.

Se você tem interesse em investigar o tema, Amado diz que é fundamental "saber buscar registros comerciais e de propriedade nos países em que esses dados são públicos; entender minimamente os conceitos de offshore, trusts, beneficial owners, entre outros dessa área; saber buscar em bases sobre barcos e aviões". Marchesini também tem uma dica valiosa. "Uma mina de ouro de informações é o Offshore Leaks Database, mantido pelo ICIJ, que contém informações já verificadas de donos de offshores."


Em nome do Pai

Quem já assistiu ao filme "Spotlight: Segredos Revelados", imagina como é difícil investigar crimes sexuais envolvendo o clero. Baseado na história verídica da equipe de jornalismo investigativo do jornal The Boston Globe que revelou casos de abusos sexuais e pedofilia na Igreja Católica, a obra venceu o Oscar em 2016 nas categorias de melhor filme e melhor roteiro original. Já a investigação que inspirou a película recebeu o Pulitzer em 2003. Por aqui no Brasil, os jornalistas Maria Carolina Trevisan e José Dacau sentiram na pele a dificuldade de mergulhar nesse tema. E emergiram com uma série de reportagens, publicadas no UOL desde o fim de setembro, que revelam que um padre é acusado de assediar e violentar sexualmente monges em Minas Gerais.

Segundo a dupla, a pauta surgiu a partir de uma dica de uma fonte de Trevisan. Então, ela fez uma pré-apuração para entender o que havia ocorrido no Mosteiro Santíssima Trindade, na cidade mineira de Monte Sião. A repórter descobriu que a história parava em pé e acionou o núcleo investigativo do UOL. O coordenador do time de investigação, Flávio Costa, deu o aval e colocou Dacau na apuração. O repórter já havia feito a cobertura de outra pauta relacionada à Igreja Católica, um escândalo em Arapiraca (AL) que envolvia dois monsenhores. "Foi importante a parceria, que uniu diferentes qualidades e experiências de cada um", me disseram Trevisan e Dacau.

A área de audiovisual do UOL, o MOV, também entrou em cena para produzir o documentário "Nosso Pai". A dupla de repórteres investigativos conta como foi a saga. "Levamos 10 meses de apuração, falamos com 40 pessoas, viajamos mais de 4 mil km, por 12 cidades, em 3 estados. A pandemia fez tudo ficar mais complexo e mais lento. Tomamos todos os cuidados e protocolos. Mas não deixamos de apurar."

#PraCegoVer: print da tela do UOL mostra os dois episódios do documentário Nosso Pai, que também está disponível no YouTube

De acordo com Trevisan e Dacau, até a publicação das reportagens, os casos dos supostos crimes sexuais cometidos pelo padre Ernani Maia dos Reis ainda não haviam chegado à Justiça. "Fomos nós que juntamos o quebra-cabeça. Também é uma apuração delicada porque envolve pessoas que foram vítimas de violência. Isso tem particularidades: todo o cuidado na escuta, na decisão de conceder entrevistas, no sigilo de quem pediu sigilo, em evitar a revitimização que não fosse o primordial para a investigação."

As estratégias para cobrir o caso foram muito bem pensadas. Segundo a dupla de repórteres, eles fizeram plantão, descobriram rotinas do investigado e mergulharam no mundo da Igreja Católica. "Quando falamos com o padre Ernani, sabíamos a placa do carro dele, o local onde ele trabalha, tínhamos gravador em ação, informações do horário em que ele começava o atendimento, mais ou menos a vaga do carro onde ele costuma parar. Nossa estratégia foi deixar que ele falasse, sem interromper e sem transparecer o que sabíamos, num primeiro momento."

Para entrevistar as vítimas, o fundamental foi ouvir com atenção. "​​Não supomos nada. Estabelecemos uma relação de confiança para que elas se sentissem à vontade para falar da violência que sofreram. Para isso, não tínhamos tempo determinado. Fomos no tempo de cada um."

Para abordar fontes da Igreja, eles explicam que foram o mais discretos possível. "Mas deixamos claro que sabíamos elementos importantes das acusações, do processo canônico e de como ele se comportou. Essa foi mais uma estratégia de confirmação que abertura de novos caminhos. Mas muitos elementos vieram dessa parte."

Além das dificuldades impostas pela pandemia, os jornalistas também encararam as portas fechadas da Igreja Católica. "Principalmente, a dificuldade de obter informações específicas sobre o processo canônico envolvendo o padre suspeito de cometer os assédios. Tentamos falar com o arcebispo de Pouso Alegre, Dom Majella, diversas vezes. Também tentamos entrevistas com representantes da CNBB, da nunciatura e do próprio Vaticano. Sem sucesso."

E você, sabe de alguma ponta solta envolvendo crimes sexuais e a Igreja Católica? Então, veja as dicas que Trevisan e Dacau podem te dar. "Em primeiro lugar: respeite as vítimas, acredite em suas histórias. Tudo pode ser checado posteriormente. Estude. Compreenda as dinâmicas, os fundamentos e a hierarquia da Igreja. Proteja suas fontes e as vítimas, não mencione nomes nas cidades que frequenta. Cuide-se, são histórias densas e que podem nos afetar também como pessoas. Seja discreto. Registre absolutamente todos os passos da reportagem, todas as conversas. Organize depoimentos, telefones, endereços, acontecimentos, datas. Mantenha sempre alguém (no nosso caso, o Flávio, nosso editor) alerta de todo o andamento da investigação, principalmente ao sair para o campo."


Dica da Semana

Se você está investigando uma pessoa ou uma empresa, ou ainda em busca de uma fonte, o LinkedIn pode ser uma mina de ouro para garimpar informações relevantes para a sua apuração.

Você pode usar operadores de busca avançada no Google para encontrar um determinado personagem. Por exemplo, ao digitar no buscador "eduardo leite" "médico" "feira de santana" site:linkedin.com, o primeiro resultado da pesquisa é este link

Basicamente, estou dizendo para o Google que busque somente no LinkedIn (daí o operador site:linkedin.com) por uma pessoa chamada Eduardo Leite, que seja médico e more em Feira de Santana. No caso específico, estou buscando por um defensor da cloroquina – que aparentemente teve seu canal anterior bloqueado no YouTube.

Com a extensão do Chrome SignalHire, é simples descobrir contatos de pessoas que tenham conta no LinkedIn. Basta se cadastrar na ferramenta com um e-mail corporativo. Ela indica que o médico Eduardo Leite tem o seguinte contato: gastroajuda@hotmail.com. Uma nova busca no Google nos mostra que foi justamente com esse e-mail que o médico registrou sua candidatura no TSE, em 2020, para concorrer ao cargo de vereador de Feira de Santana.

Com isso, encerro minha participação na Investigadora. Muito obrigado a todos vocês. E boas investigações! 


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*Eduardo Goulart de Andrade trabalha profissionalmente com jornalismo há 14 anos. Atualmente, é editor do Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), consórcio internacional de jornalismo investigativo. Foi repórter da TV Brasil e já publicou em diversos veículos, como The Intercept Brasil e InfoAmazonia. Desde 2018, tem focado suas reportagens na interseção entre jornalismo investigativo, jornalismo de dados e técnicas de OSINT. Também editou a newsletter Don't LAI to me, da agência Fiquem Sabendo.

Ficou com alguma dúvida? Quer saber sobre os bastidores de uma determinada reportagem ou aprender mais sobre alguma ferramenta? Vem com a gente: cruzagrafos@abraji.org.br.  

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