#20 | Em nome do pai e as ofertas paralelas de vacina

Uma newsletter sobre jornalismo investigativo baseada em dados do projeto CruzaGrafos e em investigações brasileiras

Olá! Bem-vindas e bem-vindos.

Meu nome é Eduardo Goulart de Andrade* e esta é mais uma edição da Investigadora. Hoje, falaremos sobre uma investigação que descobriu que o filho de um deputado atuou em contratos de publicidade que envolvem o governo federal. Também vamos abordar uma matéria que revelou quem é o coronel Guerra, militar supostamente envolvido no escândalo do fornecimento de vacinas. Já a Dica da Semana é sobre os documentos da CPI da Covid.

A Investigadora é gratuita. Mas, se você gosta dela, contribua financeiramente com o nosso trabalho. No final de cada edição, você encontra um QR Code e uma chave aleatória para pagar via Pix. É fácil, rápido e você pode doar o quanto quiser!

Se esta é a sua primeira vez por aqui, sinta-se em casa. Esta é uma newsletter sobre jornalismo investigativo baseada em dados do projeto CruzaGrafos – parceria da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e do Brasil.IO, com o apoio da Google News Initiative.

As bases de dados do projeto não têm avaliação de mérito. Indícios de condutas ilícitas devem ser checados com fontes e mais informações. Além disso, o fato de qualquer pessoa ser investigada não significa que ela seja culpada. Todos os dados devem ser checados, incluindo os políticos e empresas citados. Também é preciso ficar atento a pessoas e empresas homônimas. 

Consultamos milhões de dados da Receita Federal do Brasil e do Tribunal Superior Eleitoral. Mas sempre indicamos que você confira na Receita o CNPJ porque os dados de uma empresa podem mudar mais rápido do que nossa atualização.

Você pode ler mais sobre o projeto aqui. Preparamos um guia escrito, um vídeo tutorial com legendas em português, inglês e espanhol, além de uma web stories

O CruzaGrafos, indicado como finalista do Sigma Awards 2021, conta ainda com um programa de treinamentos voltado para redações, grupos de freelancers, universidades e organizações do terceiro setor ligadas à educação e à transparência de dados. 

Já fizemos o treinamento com jornalistas do Correio, da Bahia, do Globoesporte, do Rio de Janeiro, do Correio de Carajás, da cidade paraense de Marabá, do Matinal Jornalismo, da capital gaúcha, e do site Metrópoles, de Brasília. Além disso, também tivemos turmas de alunos e professores de graduação e pós-graduação de diversas universidades públicas (UFPR, UFCA, UFC, UFF, UFPA, UFSM e Unesp). Ainda treinamos um grupo de freelancers do Rio Grande do Sul, além de uma turma que reuniu jornalistas de todo o Brasil. No total, já foram 122 pessoas. 

O CruzaGrafos está disponível para todos os associados da Abraji. Para não associados, clique aqui. Quem quiser fazer parte da Abraji, pode ver os passos neste link. E aqui dá para apoiar o Brasil.IO.  

Boa leitura!


Família, a alma do negócio

Os jornalistas Amanda Audi e Guilherme Mendes revelaram no Congresso em Foco que Arthur Lira Filho, cujo pai é presidente da Câmara dos Deputados, tem intermediado contratos para agências de publicidade que são contratadas por órgãos públicos, como a Caixa Econômica Federal. Segundo a reportagem, o filho do político é sócio de Malu Cavalcante. Ela é filha do secretário parlamentar Luciano Cavalcante, braço direito do deputado.

Audi explica que a ideia da pauta surgiu a partir da dica de uma fonte, que disse que Lira Filho estava circulando em agências de publicidade e propondo contratos por meio da sua empresa, a Mídia Nova Representações. "Segundo esta pessoa, a influência do nome do presidente da Câmara estaria beneficiando os negócios. Com essa informação em mãos, comecei a apuração."

A jornalista apurou que Lira Filho não consta no quadro societário da empresa, que está apenas no nome da filha de Luciano Cavalcante. No CruzaGrafos, vemos que Maria Luiza Ferreira de Vasconcelos Cavalcante é a única sócia da Mídia Nova Representações.

#PraCegoVer: gráfico mostra que Maria Luiza Ferreira de Vasconcelos Cavalcante é dona da Mídia Nova Representações e Agenciamento de Publicidade Ltda 

"O endereço que consta no registro de CNPJ é de um apartamento residencial da Asa Norte, em Brasília – onde Malu mora com os pais", escreveram os jornalistas na matéria. No cadastro da empresa na Receita Federal também há um número de telefone celular. Audi adicionou o contato no WhatsApp. "Verifiquei que se tratava de Malu Cavalcante, uma jovem de 20 e poucos anos sem experiência na área (assim como Lira Filho). Procurei registros da empresa em contratos e licitações do governo e não encontrei."

Audi mandou mensagem para a filha de Luciano Cavalcante, na qual se identificava como jornalista. "Ela me informou que fazia serviço de representação para agências de publicidade e passou a lista de empresas que representava. Ela também confirmou que Arthur Lira Filho trabalhava com ela na área comercial."

Depois dessa conversa, um assessor de imprensa entrou em contato com Audi e falou que era amigo de Luciano Cavalcante. "Ele tentou me demover da pauta. Disse que não tinha relevância e que, em troca, poderia me abrir portas com o presidente da Câmara. Avisei os meus superiores e sinalizei ao assessor que iria continuar com a apuração." De acordo com a jornalista, Luciano também pediu para ela deixar a história de lado.

"Pesquisei as empresas agenciadas pela empresa de Lira Filho e Malu e encontrei vários contratos com órgãos públicos, como a Caixa Econômica Federal. Guilherme Mendes, repórter que me ajudou na apuração, entrou em contato com cada uma dessas empresas buscando mais informações. Apenas uma delas respondeu, dizendo que ainda não havia fechado contrato, mas nos informou que naquela semana haveria uma grande festa de lançamento da empresa [Mídia Nova Representações]", detalha Audi.

No dia da festa, Audi foi até o local da comemoração, uma mansão no Lago Sul, em Brasília. Ela conta que ouviu o discurso de Malu Cavalcante e Lira Filho, que "falaram sobre as perspectivas para a empresa e aproveitaram para agradecer o apoio da família".

Entre as fontes de informação utilizadas na apuração, a jornalista pesquisou pelas pessoas e empresas envolvidas na história no Portal de Transparência, na Caixa, na Secretaria de Comunicação Social, no Senado e na Câmara.

Para você que ficou interessado em investigar empresas de parentes de políticos que possam eventualmente se beneficiar de dinheiro público, Audi dá a letra. "Utilize bancos de dados públicos, converse com pessoas que podem ajudar com pistas e não tenha medo de se embrenhar no emaranhado de informações oficiais dos portais de transparência. Faça registros e prints de tudo que apurar e grave as ligações que receber. Uma vez que está seguro de sua apuração, não desista da pauta mesmo se sofrer pressão de pessoas influentes."


Vacinas sob suspeitas

A Agência Pública tem feito uma cobertura exemplar sobre as negociatas de vacinas envolvendo a empresa Davati Medical Supply e o governo federal. O veículo descobriu que uma organização evangélica tentou vender vacinas ao Ministério da Saúde e a prefeituras. A Pública também mostrou que o deputado federal Roberto de Lucena (Podemos-SP) apoiou essas negociações paralelas de doses. E o site ainda revelou a identidade de um militar que estaria participando do esquema. As três reportagens são assinadas pelos jornalistas Alice Maciel e Bruno Fonseca.

O caso veio à tona depois que o policial Luiz Paulo Dominguetti Pereira, que afirma ser representante da Davati, disse em entrevista à repórter Constança Rezende, da Folha de S.Paulo, que o governo Bolsonaro pediu propina de US$ 1 por dose de vacina. Dominguetti teve seu celular apreendido na CPI da Covid. E o Fantástico teve acesso a mensagens do aparelho. O programa da Globo mostrou que um dos interlocutores de Dominguetti era um tal de coronel Guerra. Mas, enfim, quem seria esse militar?

Alice Maciel e Bruno Fonseca descobriram a identidade dele: Glaucio Octaviano Guerra, coronel da Aeronáutica reformado em 2016. Além disso, os jornalistas da Pública também revelaram que o militar tem dois irmãos. Um é o ex-policial federal Cláudio Guerra, acusado de ser miliciano. E o outro, o ex-auditor fiscal Glauco Octaviano Guerra, preso na Operação Mercadores do Caos, que investigou fraudes durante a pandemia. Tutti buona gente.

No CruzaGrafos, vemos que Glauco Guerra é sócio da MHS Produtos e Serviço. Segundo o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, a empresa importou respiradores e está envolvida em um esquema de desvio de verba pública.

#PraCegoVer: print do CruzaGrafos aponta que Glauco é o único sócio da MHS Produtos e Serviço

Uma fonte entrou em contato com os jornalistas e apresentou indícios de que coronel Guerra seria irmão de Glauco Octaviano Guerra. A dupla da Pública confirmou a informação a partir das redes sociais do ex-auditor.

Os jornalistas também baixaram uma base de dados de militares da reserva no Portal da Transparência do Governo Federal. Eles filtraram a busca pelo sobrenome Guerra e analisaram as patentes dos militares. Bingo!

"Além desse cruzamento, utilizamos a informação das mensagens do celular do representante da Davati de que o 'coronel Guerra' mora nos EUA e foi acompanhar o filho em um campeonato em Baltimore, em 22 de maio. Conseguimos confirmar em bases de dados do governo americano que Glaucio Octaviano Guerra reside nos EUA e que ele tinha aberto uma empresa em 2 de novembro do ano passado, a Guerra International Consultants, no estado de Maryland, onde está localizada Baltimore. Também descobrimos que ele teve outra empresa no país com sua esposa, a Velox LLC", contaram Maciel e Fonseca à Investigadora. Para chegar na primeira empresa, os jornalistas usaram o site OpenCorporates.

Os repórteres também pesquisaram nas redes sociais da esposa de Glaucio e descobriram que o filho do casal havia participado de um campeonato de jiu-jitsu em Baltimore – justamente como apontava a mensagem trocada entre o militar e Dominguetti. 

A dupla da Pública fala sobre a importância de vasculhar redes sociais durante uma investigação. "É comum encontrar endereços de residência, nomes de empresas, datas de viagens, participação em eventos e mesmo informações familiares e de pessoas relacionadas, que podem ajudar a traçar conexões e ligar pontos na apuração."


Dica da Semana

Os senadores fizeram uma série de requerimentos para a CPI da Covid. As solicitações foram feitas a depoentes da comissão, órgãos públicos e empresas privadas. Os pedidos de informação tratam de uma série de temas – como compra de vacinas, aquisição de respiradores e produção de comprimidos de cloroquina, por exemplo. E os documentos enviados aos parlamentares podem ser acessados aqui.

São milhares de arquivos. Mas o problema é que você tem de clicar em cada um deles para baixar os documentos. Ou melhor, tinha. Isso porque o programador Eduardo Cuducos, um dos criadores do projeto Operação Serenata de Amor, fez um script em Python para automatizar o download e a descompactação de todos esses arquivos. Ele também disponibilizou um diretório no Dropbox onde dá pra baixar tudo com apenas um clique.

E aqui vai mais uma dica: para facilitar a busca por palavra-chave nesse mar de documentos, sugiro que você coloque os arquivos no Pinpoint. Com esta plataforma do Google é possível pesquisar e analisar PDFs, imagens com texto, documentos escritos à mão e até áudios de um jeito bem fácil. Falei sobre a ferramenta na edição 5 da Investigadora.


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*Eduardo Goulart de Andrade trabalha profissionalmente com jornalismo há 14 anos. Foi repórter da TV Brasil e já publicou em diversos veículos, como The Intercept Brasil e InfoAmazonia. Desde 2018, tem focado suas reportagens na interseção entre jornalismo investigativo, jornalismo de dados e técnicas de OSINT.

Ficou com alguma dúvida? Quer saber sobre os bastidores de uma determinada reportagem ou aprender mais sobre alguma ferramenta? Vem com a gente: cruzagrafos@abraji.org.br.  

Para ler as edições passadas da Investigadora, clique aqui. Por hoje, é só. Até daqui a 14 dias!

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