#21 | Intermediários de vacinas e a loucura da ditadura

Uma newsletter sobre jornalismo investigativo baseada em dados do projeto CruzaGrafos e em investigações brasileiras

Olá! Bem-vindas e bem-vindos.

Meu nome é Eduardo Goulart de Andrade* e esta é mais uma edição da Investigadora. Hoje, falaremos sobre uma investigação que revelou que o Ministério da Saúde vai pagar 20% mais caro por dose da vacina Sputnik V, porque a negociação foi intermediada por farmacêutica ligada ao Centrão. Também vamos abordar um levantamento inédito que descobriu 24 casos de presos políticos internados pela ditadura militar em manicômios. Já a Dica da Semana é sobre como melhorar suas buscas no Google.

A Investigadora é gratuita. Mas, se você gosta dela, contribua financeiramente com o nosso trabalho. No final de cada edição, você encontra um QR Code e uma chave aleatória para pagar via Pix. É fácil, rápido e você pode doar o quanto quiser!

Se esta é a sua primeira vez por aqui, sinta-se em casa. Esta é uma newsletter sobre jornalismo investigativo baseada em dados do projeto CruzaGrafos – parceria da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e do Brasil.IO, com o apoio da Google News Initiative.

As bases de dados do projeto não têm avaliação de mérito. Indícios de condutas ilícitas devem ser checados com fontes e mais informações. Além disso, o fato de qualquer pessoa ser investigada não significa que ela seja culpada. Todos os dados devem ser checados, incluindo os políticos e empresas citados. Também é preciso ficar atento a pessoas e empresas homônimas. 

Consultamos milhões de dados da Receita Federal do Brasil e do Tribunal Superior Eleitoral. Mas sempre indicamos que você confira na Receita o CNPJ porque os dados de uma empresa podem mudar mais rápido do que nossa atualização.

Você pode ler mais sobre o projeto aqui. Preparamos um guia escrito, um vídeo tutorial com legendas em português, inglês e espanhol, além de uma web stories

O CruzaGrafos, indicado como finalista do Sigma Awards 2021, conta ainda com um programa de treinamentos voltado para redações, grupos de freelancers, universidades e organizações do terceiro setor ligadas à educação e à transparência de dados. 

Já fizemos o treinamento com jornalistas do Correio, da Bahia, do Globoesporte, do Rio de Janeiro, do Correio de Carajás, da cidade paraense de Marabá, do Matinal Jornalismo, da capital gaúcha, e do site Metrópoles, de Brasília. Além disso, também tivemos turmas de alunos e professores de graduação e pós-graduação de diversas universidades públicas (UFPR, UFCA, UFC, UFF, UFPA, UFSM e Unesp). Ainda treinamos um grupo de freelancers do Rio Grande do Sul, além de uma turma que reuniu jornalistas de todo o Brasil. No total já foram 122 pessoas. 

O CruzaGrafos está disponível para todos os associados da Abraji. Para não associados, clique aqui. Quem quiser fazer parte da Abraji, pode ver os passos neste link. E aqui dá para apoiar o Brasil.IO.  

Boa leitura!


É dose!

Os jornalistas Guilherme Mazieiro, Rafael Moro Martins e Tatiana Dias jogaram luz sobre um contrato do governo federal para compra de 10 milhões de doses da Sputnik V. Em reportagem publicada no Intercept no início de julho, eles mostraram que o Ministério da Saúde vai pagar 20% mais caro do que os governos estaduais, que encomendaram a vacina direto da Rússia. Segundo a matéria, a diferença de preço de US$ 2 por dose ocorreu porque o governo Bolsonaro recorreu a um intermediário para fechar o negócio, a farmacêutica União Química.

Há suspeitas fortíssimas de que o Ministério da Saúde negociou compras de vacinas contra a Covid-19 por meio de intermediários para que funcionários do governo Bolsonaro recebessem propina. Os escândalos se acumulam. Entre as empresas envolvidas, também estão a Precisa e a Davati, que tentaram vender doses de Covaxin e AstraZeneca.

A equipe do Intercept seguiu o dinheiro para tentar encontrar contratos com indícios de irregularidades. "Partimos de suspeitas levantadas pela CPI de que há um esquema para desvio de verbas no Ministério da Saúde no contrato da Precisa, intermediária para venda de vacina. Considerando o contrato suspeito, procuramos outro contrato celebrado nos mesmos moldes e identificamos o de R$ 693,6 milhões da União Química, que intermedia a venda da vacina russa Sputnik V", explicam Mazieiro e Martins.

No CruzaGrafos, vemos que a União Química tem seis sócios. Além disso, a empresa controla 12 companhias.

#PraCegoVer: gráfico mostra as relações societárias da União Química Farmacêutica Nacional S.A

Com a ferramenta da Abraji e do Brasil.io também é possível conferir que o empresário Fernando de Castro Marques, um dos sócios da União Química, foi candidato ao Senado em 2018, mas não se elegeu.

#PraCegoVer: print do CruzaGrafos apresenta as mais de 20 empresas das quais Fernando de Castro Marques é sócio. A plataforma também traz informações sobre sua candidatura na eleição de 2018

Além de informar que o dono da União Química foi candidato ao Senado, a reportagem do Intercept também traz outras informações que expõem as ligações políticas do empresário. "A farmacêutica com sede no Distrito Federal pertence a um empresário que já doou dinheiro a um partido do Centrão, o PSD; tem um ex-deputado do Centrão como diretor; e conta com o lobby do líder de Bolsonaro na Câmara e ex-ministro da Saúde, o deputado federal do Centrão Ricardo Barros, do PP do Paraná", escreveram os jornalistas na matéria.

Para chegar na informação de que o governo federal pagaria mais caro do que os governos estaduais por dose da vacina russa, os jornalistas do Intercept recorreram a fontes. "Obtivemos documentos sigilosos da CPI sobre o contrato do governo de Mato Grosso na compra da Sputnik V. Com fontes próximas às negociações dos estados com o fundo russo conseguimos também os documentos do contrato da Bahia. Isso foi importante para nos certificarmos de que o que foi dito pelos governadores, que todos fecharam contrato ao custo de US$ 9,95, tinha acontecido na prática", detalham Mazieiro e Martins.

A equipe do Intercept também analisou o contrato da União Química, que é público. Além disso, ainda teve acesso a telegramas trocados pela representação brasileira na Índia com o governo brasileiro. "Esses últimos documentos também são sigilosos e estão sob análise da CPI", comentam os jornalistas.

Segundo Mazieiro e Martins, ter acesso aos documentos sigilosos das compras firmadas pelos estados foi a principal dificuldade que eles enfrentaram durante a apuração. "Tínhamos as informações de que os preços da União Química, de US$ 11,95 por dose, incluía 'o risco de variação cambial por parte da União Química, frete sob condição de refrigeração até o Brasil, despesas de importação, custos de carta de crédito em favor do Fundo Russo, etiquetagem em Português e farmacovigilância'. Tivemos o cuidado de checar esses custos para os estados e saber se a compra direta não seria uma furada. A dificuldade foi obter com fontes esses vazamentos." Assim, eles confirmaram que o preço final pago pelos governos estaduais é mais barato.

Ficou interessado em investigar possíveis irregularidades envolvendo a venda de vacinas? "Mergulhe na base de dados e documentos abertos recebidos pela CPI da Covid. A própria comissão já sinalizou que não terá tempo de avaliar tudo. E certamente há histórias inéditas por lá", recomendam Mazieiro e Martins. Na edição 20 da Investigadora, demos dicas sobre o acesso aos documentos da CPI da Covid.


Ditadura: a 'fábrica de loucos'

Uma das fases mais sombrias da história do Brasil foi a época da ditadura militar, quando prisões políticas e tortura eram promovidas por agentes do Estado. Por isso, é preciso sempre olhar para o passado para que esses crimes bárbaros nunca mais voltem a acontecer. E depois de 36 anos do fim do regime, a jornalista Amanda Rossi mergulhou fundo em documentos e relatos desse período de trevas para revelar histórias ainda inéditas. A partir de um levantamento minucioso, a repórter identificou que a ditadura internou 24 presos políticos em manicômios. Os casos ocorreram em pelo menos nove estados. A reportagem foi publicada pelo UOL em junho passado.

"A internação de presos políticos em instituições psiquiátricas, durante o período em que estavam sob a custódia do Estado, era um episódio pouco nítido da história brasileira. Se falava que isso poderia ter acontecido, mas sem concretude. Nos perguntamos, então, se seria possível provar que isso havia ocorrido", conta Rossi.

A jornalista explica que a apuração envolveu levantar as pesquisas acadêmicas sobre o tema, além do que foi abordado em comissões da verdade – tanto a nacional, quanto as estaduais. Livros, pesquisas e relatórios embasaram a investigação. A repórter conta que também entrevistou pesquisadores e membros das comissões. "Essas leituras e conversas deixaram claro que este era um tema que ainda não tinha sido investigado a fundo. Além de nos darem pistas importantes de pesquisa."

Segundo Rossi, diversos arquivos públicos estão fechados por causa da pandemia. Essa restrição dificultou a busca por documentos. Por outro lado, ela diz que há muita documentação do período da ditadura já digitalizada. A repórter, inclusive, escreveu um fio no Twitter sobre fontes documentais. O acervo virtual do Brasil Nunca Mais, que reúne processos da Justiça Militar, é parada obrigatória para pesquisar a tortura no país.

#PraCegoVer: print do site BNM Digit@l, que disponibiliza o acervo do Brasil: Nunca Mais, uma iniciativa do Conselho Mundial de Igrejas e da Arquidiocese de São Paulo. Um dos objetivos do projeto era reunir e preservar documentos que revelam as violações aos direitos humanos promovidas pela ditadura militar

Rossi afirma que muitos documentos do período foram destruídos ou simplesmente desapareceram. "O trabalho mais aprofundado sobre o assunto tinha sido feito pela Assembleia Legislativa de São Paulo, a respeito das internações no Manicômio de Franco da Rocha, no Complexo do Juquery. Passei uma semana buscando documentos no arquivo da Alesp – não há nenhum sinal deles", lamenta a repórter.

A jornalista conta que a principal dificuldade (e frustração) que envolveu a apuração foi descobrir que a história foi propositalmente apagada. "Por exemplo: descobri a existência de um documento importante, e que ele havia sido recolhido pelo Exército em determinado momento. Procurei o Exército (via Lei de Acesso), que simplesmente informou que era autorizado a destruir conjuntos de documentos – e até mesmo a destruir o próprio ofício que determinava a destruição do material."


Dica da Semana

O Google é uma ferramenta que todo mundo conhece, mas que poucos sabem extrair o melhor dela. Para explorar o máximo de sua potencialidade, é preciso entender como funciona a sintaxe do buscador e ter um pouco de criatividade. Os chamados operadores de busca avançada nos ajudam a garimpar as preciosidades indexadas pela plataforma. E, assim, "separamos o ouro do barro" e chegamos mais rápido em informações relevantes.

Por exemplo, fiz a seguinte pesquisa: "Davati Medical Supply" site:gov. Ou seja, "falei" para o Google que queria pesquisar pelo termo exato Davati Medical Supply, por isso estava entre aspas, somente em páginas governamentais norte-americanas. A ideia era procurar por possíveis maracutaias envolvendo a empresa nos Estados Unidos (daí o site:gov).

#PraCegoVer: captura de tela com os termos"Davati Medical Supply" site:gov na caixa de busca do Google

Essa pesquisa trouxe apenas dois links como resultado. Ambos com informações quentíssimas da Food and Drug Administration (FDA), agência regulatória dos Estados Unidos. E foi justamente no primeiro link onde consegui as informações que embasaram um furo que publiquei no Metrópoles em julho: a Davati vende ilegalmente vacina contra gripe nos Estados Unidos.

Outro milagre operado pelo "São Google" foi em uma apuração que fiz no ano passado. Estava investigando uma empresa paulista de ambulâncias chamada Remocenter. Primeiro, busquei possíveis relações da companhia com o poder público. Para isso pesquisei pelo nome da empresa somente em páginas governamentais (site:gov.br).

#PraCegoVer: print da pesquisa no Google. A busca remocenter site:gov.br gerou cerca de 17.800 resultados. O quarto link é uma ata de registro de preço da empresa com a prefeitura de São Paulo

A partir daí, vi que a empresa já havia sido contratada pela prefeitura de São Paulo. E sabendo que a capital paulista tem uma Controladoria Geral, refinei minha pesquisa para buscar somente em páginas da prefeitura que continham, simultaneamente, os termos Remocenter e auditoria. E aqui vale uma dica: o operador AND, que faz a conexão entre os dois termos (remocenter e auditoria), tem que ser escrito em letras maiúsculas.

#PraCegoVer: imagem da pesquisa no Google. A busca remocenter AND auditoria site:prefeitura.sp.gov.br gerou apenas seis resultados. Em um dos links, há a informação de que os preços orçados pela companhia estavam muito acima das cotações de outras empresas. Também encontrei um relatório que afirma que a Remocenter foi declarada inidônea para licitar com a administração municipal

O primeiro e o segundo resultados da pesquisa são relatórios de auditoria. A partir daí, tivemos a base da apuração que resultou nesta reportagem que fiz para o Intercept em parceria com os repórteres Fábio Bispo e Hyury Potter. Na matéria, mostramos que o dono da Remocenter não apenas articulou a fraude dos respiradores de Santa Catarina, como também lavou dinheiro do golpe com ambulâncias em São Paulo.

Quer se aprofundar nos operadores de busca avançada? A Escola de Dados tem um tutorial ótimo sobre o tema. O material traz dicas de como encontrar um formato de arquivo específico, como PDF, por exemplo. Entre outras coisas, também explica de que maneira é possível buscar uma palavra-chave do título de um texto. E lembre-se: para resultados mais precisos, combine diferentes operadores numa mesma pesquisa.

E antes de terminarmos esta edição, aqui vai um recado importantíssimo: a Abraji está com inscrições abertas para o 16º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. O evento será realizado de forma virtual, entre 23 e 29 de agosto. Para se inscrever, é de graça.


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*Eduardo Goulart de Andrade trabalha profissionalmente com jornalismo há 14 anos. Foi repórter da TV Brasil e já publicou em diversos veículos, como The Intercept Brasil e InfoAmazonia. Desde 2018, tem focado suas reportagens na interseção entre jornalismo investigativo, jornalismo de dados e técnicas de OSINT. Também edita a newsletter Don't LAI to Me, da agência Fiquem Sabendo.

Ficou com alguma dúvida? Quer saber sobre os bastidores de uma determinada reportagem ou aprender mais sobre alguma ferramenta? Vem com a gente: cruzagrafos@abraji.org.br.  

Para ler as edições passadas da Investigadora, clique aqui. Por hoje, é só. Até daqui a 14 dias!

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