#16 | Falcatruas com a cota parlamentar e vacinas vencidas

Uma newsletter sobre jornalismo investigativo baseada em dados do projeto CruzaGrafos e em investigações brasileiras

Olá! Bem-vindas e bem-vindos.

Meu nome é Eduardo Goulart de Andrade* e esta é mais uma edição da Investigadora. Hoje, falaremos sobre a reportagem que revelou um suposto esquema de corrupção envolvendo deputados federais, um servidor da Câmara e uma locadora de veículos. Também vamos abordar uma investigação que mostrou que 23 estados brasileiros aplicaram vacinas vencidas contra a covid-19. Já a Dica da Semana traz exemplos de como usar o "inspetor web" para analisar códigos de sites.

A Investigadora é gratuita. Mas, se você gosta dela, contribua financeiramente com o nosso trabalho. No final de cada edição, você encontra um QR Code e uma chave aleatória para pagar via Pix. É fácil, rápido e você pode doar o quanto quiser!

Se esta é a sua primeira vez por aqui, sinta-se em casa. Esta é uma newsletter sobre jornalismo investigativo baseada em dados do projeto CruzaGrafos – parceria da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e do Brasil.IO, com o apoio da Google News Initiative.

As bases de dados do projeto não têm avaliação de mérito. Indícios de condutas ilícitas devem ser checados com fontes e mais informações. Além disso, o fato de qualquer pessoa ser investigada não significa que ela seja culpada. Todos os dados devem ser checados, incluindo os políticos e empresas citados. Também é preciso ficar atento a pessoas e empresas homônimas.

Você pode ler mais sobre o projeto aqui. Preparamos um guia escrito, um vídeo tutorial com legendas em português, inglês e espanhol, além de uma web stories

O CruzaGrafos, que foi indicado semana passada como shorlist (finalista) do Sigma Awards 2021, conta ainda com um programa de treinamentos voltado para redações, grupos de freelancers, universidades e organizações do terceiro setor ligadas à educação e à transparência de dados. Já fizemos o treinamento com jornalistas do Correio, da Bahia, do Globoesporte, do Rio de Janeiro, e do Correio de Carajás, da cidade paraense de Marabá. Além disso, também tivemos turmas de alunos e professores de graduação e pós-graduação de diversas universidades públicas (UFPR, UFCA, UFC, UFF, UFPA e UFSM). E em breve, será a vez da redação do Matinal Jornalismo, de Porto Alegre, e ainda de um grupo de freelancers também do Rio Grande do Sul.

O CruzaGrafos é aberto a todos os associados da Abraji. Para não associados, clique aqui. Quem quiser fazer parte da Abraji, pode ver os passos neste link. E aqui dá para apoiar o Brasil.IO.  

Boa leitura!


Quatro rodas de mamata

Durante pouco mais de um ano, o jornalista e coordenador do Núcleo Investigativo da CNN Brasil, José Brito, investigou notas fiscais apresentadas por deputados federais que utilizaram a cota parlamentar e foram reembolsados com dinheiro público. Brito explica que a maior parte desses documentos está digitalizada e disponível de forma pública. 

Com os CNPJs apresentados nas notas, ele levantou informações na Receita Federal sobre os proprietários das empresas beneficiadas com a cota parlamentar. Também pesquisou em Juntas Comerciais. A partir daí, descobriu que uma locadora de carros que pertence à esposa de um funcionário da Câmara dos Deputados foi a segunda que mais recebeu dinheiro público vindo da cota parlamentar. "Ao longo da apuração consegui prints de conversas que mostram que o servidor seria o operador da empresa, o que é ilegal. E mais algumas possíveis ilegalidades foram denunciadas por um outro servidor em entrevista com imagem preservada e por um deputado."

A reportagem, publicada em 24 de abril, contou também com a participação do produtor de jornalismo de dados da CNN, Vital Neto. "Ele baixou todas as planilhas das despesas de cota parlamentar ano a ano e analisou no RStudio. Isso foi importante para levantar valores, fazer download das Notas Fiscais e também recortes como, por exemplo, mostrar quais deputados mais contrataram a locação de carros. Também fizemos pedidos pela Lei de Acesso à Informação (LAI)", detalha Brito.

"A segunda locadora de carros mais contratada por deputados federais nas últimas duas legislaturas pertence à esposa de um servidor da Câmara dos Deputados. Desde janeiro de 2017, a Gold Car Brasília Locação de Veículos Ltda., com sede no Distrito Federal, emitiu pelo menos 676 comprovantes de pagamentos feitos por 23 deputados federais, sendo 21 deles da atual legislatura. Até o momento, o valor total recebido pelo serviço é de R$ 2.922.785,41. O marido da proprietária da empresa é o analista legislativo FC-4, Idelfonso Vidal Salmito", escreveram os jornalistas no lide da matéria.

No CruzaGrafos, é possível ver que Juliana Lomazzi Fontenele Salmito é a única sócia da empresa.

#PraCegoVer: além do gráfico com os nomes da empresa e da proprietária Juliana, a plataforma da Abraji e do Brasil.io mostra também o CNPJ da Gold Car: 26.735.227/0001-79

Os jornalistas da CNN também tiveram acesso a mensagens de Idelfonso oferecendo e negociando os veículos com parlamentares. Além disso, eles apuraram que o servidor ofereceria "rachadinha" aos parlamentares, com o retorno de parte do valor pago pela locação do carro, e ainda apresentava a possibilidade de o político se tornar dono do veículo por meio do pagamento com dinheiro público.

Brito conta que encontrar pessoas que aceitassem falar o que sabiam sobre o possível esquema de corrupção foi a principal dificuldade que enfrentou durante o processo de investigação. "Até que um servidor e um deputado aceitaram contribuir e, inclusive, apresentar provas."

O coordenador do Núcleo Investigativo da CNN Brasil também dá uma dica para você que quer investigar possíveis problemas envolvendo o uso da cota parlamentar: toque essa apuração mesmo que seja em paralelo a outros trabalhos, mas cave as informações apresentadas nas transparências da Câmara e do Senado. "Tem uns 30 minutos livre? Puxe umas notas fiscais apresentadas por um deputado ou senador: veja a quem pertence a empresa e se essas pessoas podem ter alguma ligação. Se sentir que tem fumaça, veja os documentos de Inteiro Teor da empresa na Junta Comercial na qual ela está registrada. Com isso, é possível ver quem já foi sócio, ou começou a ser, e se ela já esteve em outro endereço, por exemplo."

Você também pode investigar o uso da cota parlamentar na Câmara a partir deste site – que possibilita filtrar por determinado deputado, empresa, período e tipo de despesa. O Senado também mantém uma página de dados abertos com informações sobre o uso da cota – embora um pouco desatualizada e com menos transparência em comparação à outra casa do Congresso.


Fora do prazo!

Há cerca de um mês, o Metrópoles publicou uma reportagem que revelou que 1.254 pessoas foram vacinadas no Brasil com doses fora do prazo de validade. As vacinas contra a covid-19 foram aplicadas em pelo menos 160 cidades, de 23 estados brasileiros. Os responsáveis pela investigação foram os jornalistas Lucas Marchesini e Raphael Veleda.

Jornalista de dados do núcleo (M)Dados do Metrópoles, Marchesini conta que a ideia da pauta surgiu a partir de uma outra apuração. Ele estava pesquisando sobre a logística de distribuição das vacinas, para tentar avaliar se a responsabilidade pela demora na aplicação das doses era responsabilidade do governo federal ou dos estados. Com as informações que conseguiu levantar, não foi possível fazer uma matéria sobre o tema. Por outro lado, descobriu que vacinas da AstraZeneca – dos lotes 4120Z001, 4120Z004 e 4120Z005 – foram aplicadas fora do prazo de validade.

#PraCegoVer: print de uma visualização de dados publicada na matéria do Metrópoles. No gráfico, vemos um mapa do Brasil colorido com diferentes cores, que indicam que São Paulo e Minas Gerais foram os estados que mais aplicaram vacinas vencidas

"Encontrei no site do Ministério da Saúde uns PDFs, com as informações de quando as vacinas foram enviadas para cada estado e quanto [foi enviado]. E lá tinha o lote [da vacina] e a data de validade de cada lote. Quando vi isso, achei interessante que alguns lotes tinham o vencimento bem curto – entre março e abril. A partir daí, com a data de vencimento, fui atrás para ver se alguma tinha sido aplicada depois do prazo", descreve Marchesini.

O jornalista explica que os PDFs do Ministério da Saúde são escaneados, por isso não foi possível extrair as informações de forma automatizada – com o uso do site Tabula, por exemplo. Falamos sobre essa ferramenta na edição de número cinco da Investigadora. Assim, ele diz que contou com a ajuda de outro repórter para levantar à mão essas informações. 

Ao todo, foram baixados cerca de 260 documentos que contêm, entre outras informações, os números dos lotes distribuídos aos estados e o prazo de validade das doses. Marchesini colocou esses dados em uma planilha do Google. "Dessa tabela, gerei um CSV e usei a data de vencimento de cada lote para cruzar com o banco de dados de vacinação do país todo, usando Python, [com a biblioteca] Pandas. Esse banco de dados é bem grande. Então, acabou demorando um pouco. Tive que fazer por pedaços." 

Marchesini disponibilizou o código de programação que ele usou para fazer essa investigação. Parênteses: na Dica da Semana da edição #14, falamos como usar a base de dados de distribuição e aplicação de vacinas do Ministério da Saúde, a partir de SQL ou BigQuery. Por fim, o Metrópoles publicou uma visualização que permite a pesquisa pelo nome das cidades que aplicaram vacinas vencidas.


Dica da Semana

Você deve ter visto que, ontem, a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, fez uma acusação gravíssima contra o jornalista Rodrigo Menegat em depoimento à CPI da Covid. De forma leviana, ela disse que Menegat, um dos melhores jornalistas de dados do Brasil e reconhecido internacionalmente pela qualidade de seu trabalho, teria hackeado o aplicativo TrateCov. Toda nossa solidariedade ao jornalista.

Na verdade, Menegat fez uma investigação jornalística. Ele inspecionou o código-fonte do aplicativo com o uso do "inspetor web". É uma ferramenta disponível para todo usuário da internet e que pode ser utilizada em qualquer site. Não há nenhum crime possível nisso. 

O Metrópoles explicou como Menegat apenas extraiu dados que já eram públicos. Neste fio do Twitter também dá para se inteirar mais sobre o caso (em inglês). E o programador Álvaro Justen (o "Turicas"), um dos instrutores do treinamento do CruzaGrafos, gravou um vídeo sensacional no qual demonstra que Menegat não hackeou o site do TrateCov. Já a Escola de Dados tem um tutorial que traz, entre outras questões, o uso do "Web Inspector" para ver os códigos por trás dos sites.


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*Eduardo Goulart de Andrade trabalha profissionalmente com jornalismo há 14 anos. Foi repórter da TV Brasil e já publicou em diversos veículos, como The Intercept Brasil e InfoAmazonia. Desde 2018, tem focado suas reportagens na interseção entre jornalismo investigativo, jornalismo de dados e técnicas de OSINT.

Ficou com alguma dúvida? Quer saber sobre os bastidores de uma determinada reportagem ou aprender mais sobre alguma ferramenta? Vem com a gente: cruzagrafos@abraji.org.br.  

Para ler as edições passadas da Investigadora, clique aqui. Por hoje, é só. Até daqui a 15 dias!

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